As pessoas gostam de você mais do que você imagina - Resenha crítica - 12min Originals
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As pessoas gostam de você mais do que você imagina - resenha crítica

Psicologia, Ciência e translation missing: br.categories_name.radar-12min

Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 

Editora: 12min

Resenha crítica

Você sai de uma conversa boa e, mais ou menos na metade do caminho de volta pra casa, começa a repensar tudo o que disse. Uma frase que saiu torta. A pausa que durou tempo demais. O momento em que você falou do seu cachorro por dois minutos seguidos e teve certeza de que a outra pessoa estava só sendo educada. Quando a porta de casa se fecha, o veredito já saiu: foi mediano, você provavelmente cansou a pessoa, melhor não insistir num próximo café.

A parte curiosa é que, do outro lado da cidade, alguém pode estar fazendo o caminho inverso com a conclusão oposta. Que a conversa foi boa. Que daria para repetir. Que você é uma companhia bem melhor do que você mesmo está disposto a admitir.

Esse desencontro tem nome. Pesquisadores o chamam de liking gap, o vão entre o quanto você imagina que a outra pessoa gostou de você e o quanto ela de fato gostou. E os estudos vêm repetindo, com uma teimosia quase divertida, que esse vão quase sempre pende para o mesmo lado. A gente se subestima.

o estudo que deu nome ao desconforto

O termo nasceu em 2018, num artigo publicado na revista Psychological Science por quatro pesquisadores: Erica Boothby, Gus Cooney, Gillian Sandstrom e Margaret Clark. Eles fizeram basicamente a mesma pergunta de três jeitos diferentes, para ver se a resposta mudava. Não mudou.

No primeiro cenário, juntaram desconhecidos numa sala e pediram que conversassem por cinco minutos, com algumas perguntas de quebra-gelo para começar. No segundo, acompanharam calouros de faculdade dividindo quarto ao longo de um ano letivo inteiro. No terceiro, observaram pessoas comuns se conhecendo durante um workshop de desenvolvimento pessoal. Em todos eles, o padrão se repetiu: os participantes achavam que tinham sido menos apreciados do que de fato foram.

O caso dos calouros é o que rende o melhor sorriso. O vão entre o que eles achavam e o que o colega de quarto realmente sentia persistiu por quase o ano todo. Só lá no fim, mais ou menos quando precisavam decidir se continuariam dividindo o mesmo teto, o abismo finalmente se fechou. Foram meses de gente convivendo bem e, em paralelo, secretamente convencida de que o outro apenas a tolerava.

por que a gente erra sempre para o mesmo lado

A explicação é quase comovente. Você erra porque está ocupado demais sendo duro consigo mesmo para perceber os sinais de que a outra pessoa está gostando da conversa. Enquanto ela ri de uma piada sua, você está num canto da própria cabeça revisando a piada anterior, a que não pegou tão bem.

Os pesquisadores descreveram isso como um foco interno e negativo: a tendência de ruminar a própria atuação, de processar com mais cuidado e mais demora justamente o que pareceu dar errado. O resultado é que os elogios silenciosos, o riso, o interesse genuíno do outro passam batido, porque sua atenção está apontada para dentro.

Vale imaginar a cena pelo que ela é: um pequeno tribunal interno do qual você é, ao mesmo tempo, o juiz, o réu e a testemunha mais severa do processo. Ninguém de fora pediu esse julgamento. Ele acontece de graça, no banco do carona da sua própria mente.

não é só com estranho, nem só pessoalmente

Se servir de companhia, o liking gap não escolhe contexto. Trabalhos posteriores dos mesmos autores encontraram o mesmo vão em grupos e em equipes de trabalho, inclusive entre times de engenharia tocando projetos juntos. Quem se acha o elo menos querido da mesa costuma estar enganado.

Ele também não some quando a conversa migra para a tela. Pesquisa de 2025 mostrou que, mesmo por texto, continuamos achando que agradamos menos do que de fato agradamos. E há uma versão ainda mais antiga e teimosa do fenômeno: estudos do psicólogo Nicholas Epley com passageiros de trem em Chicago mostraram que as pessoas previam que o trajeto seria mais agradável em silêncio, e quase sempre se surpreendiam quando puxavam conversa com um desconhecido e acabavam gostando.

Epley voltou ao tema neste ano, no livro A Little More Social. A tese, em uma frase: a gente subestima de forma sistemática o quanto se beneficia de se aproximar dos outros, e por isso se aproxima menos do que poderia.

o alívio que vem junto

Aqui está a parte boa, e ela não exige que você vire outra pessoa. Não se trata de se forçar a falar com todo mundo na fila do mercado, nem de tratar cada interação como um teste a ser vencido. O recado é mais quieto do que isso.

A voz que insiste, no fim da conversa, que você foi sem graça e cansou a pessoa não é uma narradora confiável. Ela é uma testemunha parcial, com histórico de exagero. Você pode, com tranquilidade, deixar que aquela conversa tenha sido o que provavelmente foi: boa o suficiente. A estatística está do seu lado.

o que fazer com essa informação

Para quem sai de toda conversa fazendo a própria autópsia: da próxima vez que o replay começar, lembre que ele é movido a um material só, os seus pensamentos sobre você. O que a outra pessoa sentiu ficou de fora da gravação. Provavelmente foi mais gentil do que a sua versão.

Para quem evita puxar papo com desconhecidos por achar que vai incomodar: a chance de a outra pessoa gostar da troca é maior do que o seu receio sugere. Não precisa ser hoje, nem precisa ser com todo mundo. É só uma informação a favor, guardada para quando der vontade.

Para quem trabalha em equipe e nunca sabe se foi bem numa reunião: a sensação de ter sido o menos querido da sala é, na maioria das vezes, um boato que você mesmo espalhou. Vale desconfiar dele antes de levá-lo a sério.

para levar com você

A conclusão é simples e cabe num parágrafo. Quase todo mundo subestima o quanto é apreciado. O erro é tão comum que virou regra, não exceção. Da próxima vez que sua cabeça insistir que a conversa foi um desastre, você tem um bom motivo para não acreditar nela. Provavelmente foi melhor do que pareceu. E a pessoa do outro lado, quem sabe, já está torcendo pelo próximo café.

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